Entenda o Plano Nacional de Fertilizantes e seu impacto no mercado agro

11/Mar 2022 17:33  - Atualizado 4 meses atrás

Agronegócio Milho Soja

Plano foi aprovado na manhã de sexta-feira, dia 11/03, e visa desenvolver a indústria de fertilizantes nacional

Em meio às instabilidades do cenário geopolítico do mercado internacional, o Brasil se viu refém das altas nos preços praticados para a compra, e da escassez de fertilizantes disponíveis mediante o aumento na demanda global. 

O Brasil é um país cuja economia se inclina de forma significativa ao agronegócio. O setor foi responsável por 27% do PIB do país em 2020, totalizando quase R$2 trilhões. Dessa forma, a economia brasileira está fortemente atrelada ao desenvolvimento e desdobramentos da cadeia de produção agrícola, e dos fatores que a afetam. 

A Tarken explorou um pouco sobre como o mercado do milho é afetado por fertilizantes e insumos agrícolas, confira aqui.

Plano Nacional de Fertilizantes

Frente a este cenário, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) passou a priorizar o Plano Nacional de Fertilizantes, que visa o desenvolvimento da indústria nacional. 

O Plano foi instituído nesta sexta-feira, 11, em decreto no Palácio do Planalto, e ganhou tração após o aumento dos insumos, grãos, combustíveis e demanda por produtos com o conflito no leste europeu. 

Além de visar o desenvolvimento da indústria nacional de fertilizantes e reduzir a dependência de importações em cerca de 55% até 2050, o plano também cria o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas, e revê a carga tributária sobre a produção interna de fertilizantes, que sofre com o subsídio governamental para a importação do produto.

Luis Eduardo Rangel, Secretário de Defesa Agropecuária do MAPA, participou das discussões do Plano e afirma em entrevista que é uma proposta de longo prazo, mas que medidas para mitigar os riscos para as próximas safras podem ser sacadas. Segundo ele, o governo está tratando a indústria de fertilizantes como uma indústria de base do Brasil, e uma das medidas envolve a participação do Ministério das Relações Exteriores, de forma que o Itamaraty garanta as ofertas não apenas de fertilizantes, mas também para defensivos agrícolas.

A implantação das ações do Plano Nacional de Fertilizantes poderá minimizar a dependência externa dos nutrientes que o Brasil faz uso atualmente, mas não irá cessar as relações comerciais do Brasil nesse âmbito. Seu objetivo é apenas readequar o equilíbrio entre a produção nacional e a importação, de modo a evitar problemas de fornecimento caso futuros desdobramentos impeçam ou reduzam significativamente a disponibilidade do insumo no mercado brasileiro.

Além da redução da dependência externa, o Plano ainda apresenta oportunidades em relação a produtos emergentes como os fertilizantes organominerais e orgânicos, e os subprodutos com potencial de uso agrícola, dado a nova demanda por desenvolvimento tecnológico no território nacional. O desenvolvimento de tecnologias apropriadas ao ambiente tropical de produção brasileiro e a formação de redes de apoio tecnológico ao produtor rural e aos técnicos também compõem o Plano.

A Ministra Tereza Cristina irá viajar ao Canadá no próximo dia 12, de forma a estruturar relações comerciais com produtores de fertilizantes do país, frente à ameaça de interrupção do fornecimento russo. Além disso, a ministra conta agora com o apoio de outros ministros de agricultura de diferentes países da América do Sul, para enviar à Food and Agriculture Organization – Organização de Alimentos e Agricultura da Organização das Nações Unidas (FAO), uma proposta para remover fertilizantes das sanções econômicas aplicadas à Rússia, de modo a garantir a segurança do fornecimento alimentar.

Fertilizantes na produção agrícola brasileira

Dentre os fatores que afetam a economia e o agronegócio brasileiro, é possível citar o mercado de fertilizantes, essenciais para o andamento e desenvolvimento da safra. Os fertilizantes são suplementos que são inseridos ou colocados na superfície do solo, de forma a garantir que a planta disponha de todos os nutrientes necessários para crescer e produzir sua cultura, e por vezes, servem para corrigir a acidez do solo, oferecendo um ambiente propício para o cultivo da planta. 

A produção agrícola depende de fertilizantes para garantir que cada planta está produzindo em sua capacidade máxima, gerando maior rentabilidade e lucro para o produtor, ao mesmo tempo que oferece produtos de melhor qualidade para o consumidor. Apesar de contar com condições climáticas e pluviométricas favoráveis, o solo brasileiro é pobre em nutrientes e contém alta incidência de ferro, o que o torna levemente ácido, tornando fundamental a aplicação de fertilizantes para se garantir níveis satisfatórios de produtividade para frutas e outros produtos agrícolas. 

Os fertilizantes vêm em três variações, organominerais, mineral simples e mineral misto, e um dos mais utilizados no Brasil é o NPK, formado por compostos químicos nitrogenados, de potássio, mineral de maior consumo por produtores brasileiros, e de fósforo.

Além disso, as principais culturas do Brasil – soja, milho e cana-de-açúcar – representam um consumo de quase 75% desses insumos. Para a produção desses fertilizantes, é necessário realizar a extração e processamento desses compostos, a partir de outros compostos, jazidas naturais dos minerais, ou outros processos de alta complexidade. Assim, para executar o processo produtivo de modo a atender a demanda brasileira, são necessários investimento, expertise e tempo, para garantir a infraestrutura necessária.

O Brasil importa cerca de 85% das suas demandas de fertilizantes, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos, o que fragiliza sua autonomia produtiva frente a eventos que possam afetar o andamento ou a produtividade da cadeia produtiva do agronegócio, como a guerra na Ucrânia.

Conflito no leste europeu

Após o avanço das tropas russas em território ucraniano, o mercado agro mundial sofreu rebotes e impactos inesperados, com o mercado de grãos atingindo altas históricas. Os preços da soja, milho, açúcar e trigo subiram de forma considerável, dado que tanto a Ucrânia quanto a Rússia são fortes produtores de grãos de inverno e outros produtos agrícolas que alimentam a Europa. 

O envolvimento no conflito torna inviável que as atividades de cultura e transporte se mantenham, dado a ameaça à segurança de produtores, trabalhadores e transportadores na zona de guerra, além do deslocamento de pessoas e recursos, antes envolvidos em atividades oriundas à cadeia produtiva agrícola, e agora associadas a atividades militares e de defesa.  Além disso, as sanções econômicas aplicadas à Rússia impedem o país de realizar operações financeiras no Oeste, e suspendem as relações de compra de produtos russos, dificultando o acesso do Brasil aos seus maiores exportadores de fertilizantes, fazendo a demanda crescer, e junto à ela, o preço.

Por fim, a Rússia é o segundo maior produtor de petróleo do mundo, e produz quantidades consideráveis de gás natural. Com a redução de suas atividades comerciais e energéticas, o mercado reage, aumentando o preço desses produtos de modo a desencorajar a compra de grandes volumes, e garantir, mesmo com a redução do fornecimento, que as demandas sejam atendidas. Como consequência, os preços sobem, dado que o mercado agro depende do diesel e outros combustíveis derivados do petróleo para a realização do plantio, colheita e transporte de grãos.