Conflito entre a Rússia e a Ucrânia pode afetar o mercado agro no Brasil?

23/Feb 2022 16:27  - Atualizado 4 meses atrás

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Conflito pode prejudicar setores da economia brasileira como o fornecimento de fertilizantes e combustíveis e refletir no aumento da inflação

A crise geopolítica mundial que envolve Rússia, Ucrânia, além de países da União Européia e Estados Unidos, pode afetar diretamente o setor agrícola brasileiro. A possibilidade de uma baixa na oferta de fertilizantes por restrições em nações exportadoras preocupa o pujante mercado brasileiro de adubos, que cresceu mais de 10% em 2021, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Cerca de 25% do que o Brasil importa em materiais e produtos utilizados para a produção de adubos e fertilizantes vem da Rússia. Isso equivale a cerca de 37 milhões de toneladas. 

Diante da forte demanda global por alimentos, produtores no Brasil têm motivação para investir em adubos que maximizam as produtividades, mas o setor não passa ileso ao conflito, por exemplo. Preços em alta dos fertilizantes também são outro ponto de atenção para agricultores, embora a relação de troca por produtos agrícolas tenha sido beneficiada com a alta recente das commodities.

Com o desenrolar da invasão, a tendência é que a demanda aumente ainda mais, sem haver, de fato, produto o suficiente para atendê-la. O cloreto de potássio, sal essencial para o preparo e adubação do solo para o plantio de culturas, é a maior preocupação, dizem especialistas. O Brasil importa cerca de 4 milhões de toneladas do produto anualmente, das quais 2 milhões de toneladas vêm da Rússia, enquanto a outra metade é importada da Belarus, país também envolvido no conflito, que já sofre para cumprir as cotas de venda do mês de fevereiro, segundo Anda.

Além disso, a Rússia é um dos principais fornecedores de gás natural do mundo. Com linhas de transporte passando pelo território ucraniano, os russos garantem cerca de um terço do abastecimento de gás utilizado em toda a Europa. O país também é o segundo maior produtor mundial de petróleo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. 

Com a invasão, há o risco de dano às estruturas fornecedoras de gás e petróleo da Rússia para a União Europeia. Isso pode desencadear crises energéticas ao longo de toda área ocidental do continente, além de reverberar em uma alta no mercado de combustíveis, impulsionado pelo aumento da demanda após a queda no fornecimento de petróleo. 

No Brasil, as constantes altas nos preços dos combustíveis já causam uma pressão inflacionária. A previsão dos especialistas frente ao custo do petróleo é pessimista, com o preço podendo chegar até US$100 o barril. A dependência do Brasil frente ao custo dos combustíveis pode gerar uma cadeia inflacionária que começa pela gasolina, mas que afeta também o custo de alimentos, insumos e serviços essenciais. 

Por fim, a Rússia importa produtos de origem agrícola brasileira, com destaque para a soja, frango de corte e café; a interrupção de compra desses insumos pode gerar prejuízos consideráveis no setor.

Entenda o conflito 

Na última segunda-feira (21), o presidente da Rússia Vladimir Putin reconheceu, oficialmente, a independência de dois estados separatistas em território ucraniano, a República Popular de Donetsk e a República Popular de Luhansk. Na ocasião, ele pediu à Assembléia Federal o apoio e ratificação dos tratados de amizade com ambos os Estados, além de autorizar tropas russas para o território vizinho com o objetivo de manter a paz e interceder militarmente, se necessário. A ação desencadeou uma sequência de sanções e implicações na situação geopolítica europeia e mundial. 

Já na terça-feira (22), satélites estadunidenses captaram imagens que demonstram atividade militar russa próximo à fronteira com a Ucrânia. As estimativas da Casa Branca giram em torno de 150 mil soldados russos cercando a fronteira da Ucrânia em três direções. 

*Com a invasão das tropas russas no território ucraniano, não apenas a Rússia, Ucrânia e Belarus sentirão os impactos da guerra. Países com relações comerciais e parcerias econômicas, como o Brasil, teriam implicações na economia, exportações, e em especial, no agronegócio.

Reflexos na geopolítica mundial

Um dos principais pontos do conflito entre Rússia e Ucrânia é a presença e interação, com tropas e armamentos, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no território próximo ao russo. Putin acredita que a presença da Otan, junto à sua política expansionista, representa risco real para a Rússia. A Organização, que já havia flertado com a Ucrânia antes, conta com alguns países do leste europeu como aliados, o que pode colocar a soberania e influência do estado russo sobre os países vizinhos em risco.

O Brasil procura se tornar um membro extrarregional da Otan, que conta com membros como Estados Unidos, França, Alemanha, Portugal e outros países da União Europeia. A entrada do Brasil na organização implica em um maior fortalecimento entre as relações comerciais do Mercosul e outros países, em especial os Estados Unidos e países do subcontinente europeu como um todo. 

Com o conflito militar, o Brasil terá que se posicionar a favor de um dos lados, arriscando o rompimento das relações diplomáticas e comerciais com o lado oposto. Caso apoie o lado Russo, as sanções e embargos que hoje estão em vigor contra o país russo poderiam também abranger o Brasil. Caso resolva apoiar o lado europeu, o Brasil arrisca descontentar e romper relações comerciais com a Rússia, e possivelmente China, que já sinaliza aproximação com Putin.

Reações no globo e sanções à Rússia

Os membros da UE ainda discutem as possíveis sanções a serem aplicadas à Rússia. Países como a Lituânia já impuseram embargo contra a Belarus, impedindo-a de dar vazão à sua produção de cloreto de potássio. A Alemanha discute a interrupção da construção do Nord Stream 2, gasoduto resultante da parceria entre Alemanha e Rússia na venda e consumo de gás natural. O gasoduto moverá volumes consideráveis de gás, e será uma das primeiras vias russas que não perpassa o território ucraniano para o transporte do combustível. Os Estados Unidos já apresentaram sanções econômicas contra a Rússia, dificultando suas operações financeiras no ocidente.

*Atualizado dia 24/02, às 11:31 – Moscou inicia avanço militar nas regiões separatistas em território ucraniano na madrugada do dia 24/02, com disparos e explosões ouvidos em Kiev, capital. Em anúncio, Vladmir Putin recomenda o abaixar de armas dos militares ucranianos, e diz que seu objetivo é desmilitarizar, mas não ocupar o país vizinho.