Como a invasão russa vem afetando o mercado de fertilizantes brasileiro

03/Mar 2022 15:17  - Atualizado 4 meses atrás

Agronegócio Mercado Interno Milho Soja

Brasil já inicia busca por novas alternativas de modo a evitar possíveis quebras na produção devido à falta de fertilizantes e adubos russos

Em nova avaliação, a StoneX Brasil aponta que a interrupção nas exportações de fertilizantes russos para o Brasil é inevitável. Mesmo que o Brasil opte por não aderir às sanções econômicas impostas à Rússia, haverá risco de quebra de logística e de transporte dos países e empresas que aderirem, devido à localização do conflito, que incide sobre os portos que escoam produtos pelo mar negro.

As cargas que atualmente chegam ao Brasil são contratos fechados anteriormente, cujo transporte havia sido iniciado antes da invasão. A consultoria ainda aponta que as sanções formuladas à Rússia são duras, a seguir o modelo aplicado na Belarus, que desde fevereiro não consegue entregar os carregamentos de potássio vendidos a outros países, devido ao bloqueio da Lituânia às rotas de escoamento do produto, localizadas em outros países.

Além das sanções financeiras, que prometem gerar ainda mais complicações para a Rússia e suas empresas, parte considerável de seguradoras internacionais já não asseguram as cargas de navios que circulam pelo Mar Negro, enquanto transportadoras se recusam a realizar rotas que possam se aproximar da zona de guerra, por risco de segurança.

Ministério da Agricultura se posiciona

Em coletiva à imprensa, a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que o Brasil tem estoques de fertilizantes, que estão previstos para durar até outubro, coincidindo com o plantio da safra verão, divididos em estoques internos e contratos a receber. A ministra ainda afirma que o estoque é o suficiente para iniciar a próxima safra, e que o material a ser adquirido agora será além dos estoques necessários. Além disso, a segunda safra de milho irá contar com estoques de fertilizantes o suficiente para realizar o plantio.

Há, no entanto, a necessidade de cautela, dado que ainda existem muitas variáveis desconhecidas, e que, mesmo com o produto disponível, a tendência dos preços de fertilizantes é subir de forma significativa. A ministra revelou ainda planos de viajar ao Canadá para garantir ofertas de potássio para suprir a demanda brasileira. O Canadá é o maior produtor mundial do insumo, e com os desdobramentos do conflito, está reativando minas de potássio para atender à demanda. A principal preocupação em relação ao fornecimento de fertilizantes não é pela falta do produto, mas sim pela inflação e maiores custos de alimentos, disse ainda a ministra.

Na coletiva, a ministra disse que o governo está desenvolvendo um plano nacional para o setor de fertilizantes, de forma a minimizar gargalos de legislação, tributários e questões ambientais, de modo a desenvolver o setor de forma interna. O plano prevê maior agilidade na aprovação de licenças ambientais para produtos, e há a possibilidade da exploração do projeto Silvinita, uma mina de potássio no Amazonas, com capacidade para suprir um quarto da demanda atual do Brasil. O plano ainda aborda também políticas para o fósforo, mineral essencial para a produção de adubos, mas é uma solução com foco no longo prazo, e que ações imediatas, como estudos da Embrapa para otimização do uso de adubos, são essenciais.

Em entrevista com a Jovem Pan, a ministra Tereza Cristina anunciou, ainda, intenção de se reunir com a direção da Food and Agriculture Organization (FAO), órgão responsável pela gestão da agricultura e alimentos das Nações Unidas, para apresentar uma proposta de remoção de sanções econômicas em relação aos fertilizantes russos. A ministra defende que as sanções, que não são aplicadas à alimentos, devem se estender ao mercado de fertilizantes, dado que são um insumo essencial para a produção de alimentos.

Mercado Nacional de Fertilizantes

Já o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), disse em nota que está em alerta quanto ao risco do aumento de preços e da escassez de fertilizantes causados pelo conflito, e sugere ao governo federal a criação de um grupo de trabalho (GT) com empresas e órgãos públicos para buscar soluções que visem o avanço do projeto Silvinita. Ibram ainda defende que há de se considerar restrições à agricultura brasileira causadas por uma ruptura na oferta de adubos. Para solucionar a questão da dependência de importações de insumos, o instituto defendeu a necessidade de políticas públicas e privadas, isonomia tributária e harmonização de alíquotas de ICMS.

Ao contrário do que foi anunciado na coletiva de imprensa pela Ministra da Agricultura, a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) afirma em nota que o Brasil tem estoque de fertilizantes o suficiente apenas para os próximos três meses, segundo agentes de mercado. As restrições que inibem o fluxo de navios na região do conflito geram dificuldades no transporte de insumos, e o mercado se volta para a busca de soluções.
No atual cenário, a Verde Agritech, empresa que produz fertilizantes no Brasil, anuncia a aceleração de seus planos de investimentos para a produção de fertilizantes potássicos em Minas Gerais. A empresa, que já tem uma mina de potássio e uma fábrica em São Gotardo, pretende abrir uma segunda unidade, com produção a se iniciar no terceiro trimestre, com capacidade de produção girando em torno de 800 mil toneladas/ano, tornando a empresa capaz de produzir cerca de 1,2 milhões de toneladas no primeiro ano de operação da unidade, cerca de um quarto da demanda brasileira. A previsão é que a produção dobre até o final do quarto trimestre.