Após dois meses, Guerra na Ucrânia ainda gera impactos para o Brasil

26/Apr 2022 17:10  - Atualizado 2 meses atrás

Mercado Interno

Os maiores impactos estão relacionados à economia e ao agronegócio, e previsão é que os efeitos permaneçam até 2024

Na madrugada de 24 de fevereiro, o presidente Vladimir Putin autorizou a invasão de tropas militares russas em território ucraniano. O conflito, que já dura dois meses, repercutiu em diferentes camadas da economia mundial, reverberando de forma significativa no agronegócio brasileiro. 

Antes da invasão, no fim de janeiro e início de fevereiro, a Belarus, um dos principais exportadores mundiais de cloreto de potássio e principal fornecedor do insumo para os agricultores brasileiros, já sofria com sanções econômicas de países vizinhos, impedindo o escoamento do sal para os compradores. As sanções foram aplicadas após instabilidades no clima político do país, que elegeu pela sexta vez, o presidente pró-Rússia, Aleksandr Lukashenko.

Além do cloreto de potássio, o Brasil também importa cerca de 85% de todo o fertilizante utilizado no agronegócio, dos quais um quarto são originários da Rússia. Com o avanço das tropas russas, o comércio, transporte e escoamento de fertilizantes pelo mar negro, importante via de transporte, especialmente após ataque com mísseis que prejudicaram a infraestrutura de transporte local, foi completamente interrompido, com navios sendo impedidos de transitar na área, sob ameaça de ataque russo. 

O mercado de fertilizantes já havia enfrentado uma alta nos valores significativos em 2021, incapaz de absorver o crescimento na demanda global. A repentina ameaça ao fornecimento do insumo, responsável por garantir a produtividade e aumentar as áreas de plantio, fez os custos subirem ainda mais em 2022, obrigando o Brasil a procurar por diferentes fornecedores, como Irã e Canadá. A instabilidade no fornecimento, aliado aos aumentos nos preços, fez ainda com que produtores tivessem um comportamento mais conservador nos investimentos às lavouras da safra atual, optando por não expandir a área de plantio da safra atual. 

Além do aumento no preço dos fertilizantes, a Ucrânia, principal fornecedor de grãos na Europa, foi impedida de dar prosseguimento aos trabalhos de cultivo, e hoje procura por meios de escoar a produção já armazenada de milho, soja e trigo, principalmente. O golpe no fornecimento, e o medo sobre a incerteza de fornecimento levou os compradores a fecharem contratos futuros recordes nas diferentes bolsas de valores, em especial na de Chicago, gerando um aumento repentino nos preços dos grãos nos mercados internacionais e no mercado brasileiro. Há reporte de milho a R$110 no Sul do país, enquanto a saca de soja ultrapassou os R$200 na B3. 

A Rússia, além de exportar fertilizantes, é o terceiro maior produtor mundial de petróleo, e fornece cerca de 40% de todo o gás natural consumido pela União Européia. Com as sanções econômicas impostas ao país, a Rússia ameaçou sua retirada no mercado, fazendo o preço do barril de petróleo ultrapassar a casa dos US$130, e ameaçando o fornecimento de energia elétrica na Europa, prejudicando as operações de produção e colheita de grãos, além da produção de adubos e outros insumos agrícolas.

As altas consecutivas nos custos de produção e transporte levou a um aumento generalizado nos preços dos alimentos, podendo crescer em até 20%, segundo a Organização de Alimentos e Agricultura (FAO em inglês) da Organização das Nações Unidas. 

Em levantamento, o Banco Mundial estima que os impactos nos setores de combustíveis e alimentos devem durar até o início de 2024, e aumentam o risco de estagflação, momento em que o país vê aumento nos preços, mas os investimentos realizados na economia não acompanham o ritmo de crescimento. Em análise, o banco ainda informou que a atual crise de commodities é a pior vista desde 1970, e prevê um aumento significativo nos custos de energia para o resto de 2022. No Brasil, a taxa Selic, taxa básica de juros no país, que acompanha a inflação, já foi reajustada nove vezes desde o começo do ano.

Para o futuro, espera-se ainda um período de turbulência, motivado pela combinação de impactos da guerra, aliado à recuperação da pandemia de Covid-19. Apesar disso, é possível que os impactos do conflito sejam amenizados, caso os países consigam encontrar uma solução mútua para o cessar-fogo.